Neil Gaiman escreve versão macabra para o clássico ‘João e Maria’

Na história politicamente correta, João e Maria se enfiam no meio da densa floresta sozinhos, à procura de comida. Até encontrarem, no meio do mato, uma casa feita de doces, onde uma velha senhora (que eles descobrem depois que é uma bruxa malvada) vive.

A velha senhora tem um plano: comer os dois irmãos assados. Mas os dois conseguem esturricá-la antes no forno e vão embora, não sem antes comerem umas lasquinhas da casa doce.

A história já é meio macabra por si só. Imagine então nas mãos de Neil Gaiman, um dos maiores nomes do terror infanto-juvenil-quadrinístico deste planeta.

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Neil teve a ideia de reescrever o conto clássico dos irmãos Grimm depois de se apaixonar pelas sombrias ilustrações de Lorenzo Mattotti – outra referência dos quadrinhos. Os traços de tinta indiana em preto e branco de Mattotti ilustram essa edição da Intríseca. Juntos, os dois criaram um livro denso, recomendável para crianças já crescidas, que têm ideias claras sobre bem e mal, sobre vida e morte, sobre guerra e paz.

A história não tem rodeios: João e Maria tiveram a infelicidade de viver em uma época de guerra e fome. A mãe e o pai os abandonam à própria sorte, no meio da floresta. A velha senhora é uma esfomeada, também vítima da guerra, que sonha em comer carne novamente. E – spoiler – Maria mata a bruxa queimada no forno de ferro da casa doce. É quase uma realidade, mesmo distante da atual, já que não vivemos em um período de guerra. Talvez o único detalhe fantástico da história seja a casa feita de doces.

E por que você daria um livro tão macabro para um pré-adolescente? Porque é bem escrito. Muito bem escrito. Vai por mim. É Neil Gaiman. Nem eu, que sou muito fã de terror, gosto. E acho incrível como ele consegue desenvolver tramas psicológicos para gente que ainda nem tem muita noção do que os nossos pensamentos são capazes. É uma bela maneira de iniciar as pessoas nos saborosos e delicados caminhos intrincados da mente. A casa doce está lá. Entrar nela sempre será opção quando a gente tem fome.

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João & Maria
Indicado para crianças a partir de 10 anos
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Autor: Neil Gaiman
Ilustrador: Lorenzo Mattotti
Editora: Intrínseca
Páginas: 55

Série “Como Treinar seu Dragão” tem 2º filme e chega a 11º livro no Brasil

Já entrando no clima das férias de julho, acaba de estrear nos cinemas brasileiros a animação “Como Treinar seu Dragão 2”, continuação do sucesso de 2010.

Junto com o burburinho da estreia, a editora Intrínseca (que detém, no Brasil, os direitos de publicação dos livros que inspiraram os filmes) acaba de lançar a 11ª edição da série escrita pela britânica Cressida Cowell. A editora de livros infantis inglesa Hachette (que publica na gringa) garante que este é o penúltimo livro da série.

Como Trair o Herói de um Dragão segue a mesma narrativa rápida, atropelada e divertida dos 10 anteriores: o protagonista, o garoto viking desajeitado Soluço Spantosicus Strondus II, precisa recuperar dez coisas perdidas para se tornar o Rei do Oeste Mais Selvagem. Só que ele é mordido por um dragão, cai nas garras de uma bruxa e ainda suspeita de que um de seus amigos o está traindo.

Ótima leitura para crianças. Os assuntos são leves, divertidos, e fazem parte do imaginário comum da fase: luta do bem contra o mal, conflitos entre pais e filhos, amizades da escola, e é claro, dragões. De várias espécies.

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A série toda tem boas sacadinhas, que vou enumerar:

  1. As ilustrações são da própria autora. Como ela é melhor em escrever do que desenhar, as páginas são rabiscadas com vários garranchos, como se um irmão mais novo tivesse ‘pichado’ todos os livros com lápis preto. Isso dá um ar grotesco, bárbaro, às páginas. E faz todo o sentido com as histórias.
  2. A narração é em primeira pessoa, mas de um jeito maluco: os livros começam com uma nota explicando que a história foi encontrada em algum lugar de uma ilha nórdica remota, e que ela foi escrita pelo personagem principal, Soluço, quando ele já estava velho e queria registrar suas memórias de infância. A brincadeira é levada tão a sério que, nas capas, a história é creditada a Soluço, enquanto Cressida é apenas a tradutora.
  3. Assim como acontece com outras séries literárias infantis, Como Treinar seu Dragão está amadurecendo. De umas edições pra cá, algumas páginas são completamente pretas. Elas normalmente contam histórias mais obscuras, quase de terror, cheias de emoções (que a criançada adora).

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Só para desencargo de consciência: na verdade, há 12 livros da série. Um deles foi “escrito” pelo dragão de estimação de Soluço, o Banguela. Por isso, ele conta como um extra, assim como Os Contos de Beedle, o Bardo (J.K. Rowling), que tem a ver com Harry Potter, mas não conta como publicação da série. Ah, e o nome do livro do Banguela é Como Treinar o seu Viking. Eu li e achei ótimo. Um dos mais engraçados.
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Como Trair o Herói de um Dragão
Indicado para crianças com idade a partir de 9 anos
Texto e ilustrações: Cressida Cowell
Tradução: Raquel Zampil
Editora: Intrínseca
Páginas: 405

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