“Eugênia e os Robôs” é uma história meio nerd que fala sobre… Humanos

Em suas histórias mais famosas, José Saramago ❤ utiliza um recurso simples e eficaz: a partir de uma suposição, ele desenvolve uma trama que capta o leitor até a última linha do emaranhado de frases sem pontos, ansioso para entender como seria se todo mundo ficasse cego, ou todo mundo votasse em branco.

A escritora e ilustradora Janaina Tokitaka usou do mesmo recurso, do E SE, para criar a história de Eugênia e os Robôs: e se todo mundo virasse robô de repente? A partir dessa suposição, a história desenvolve-se abordando as diferenças entre as pessoas, o sentido do eu, a tolerância social.

O livro tem uma menina como personagem principal, mas não é mais uma dessas garotas-clichês-vazias de livros infantis. A tímida e antissocial Eugênia é inteligente e adora tecnologia. Sem amigos na escola e sem pais ideais (que criança no mundo acredita que seus pais são os melhores, gente?), transforma seu quarto high-tech em um laboratório de robótica.

Ela curte tanto a ideia de criar robôs para brincar que decide transformar cada um dos seres vivos de sua cidade em máquinas. A partir daí, tudo começa a sair do jeitinho que ela queria. E a partir daí, a personagem principal, inteligente e tímida, transforma-se em anti-herói.

Eugênia começa a perceber que conviver com as diferenças é menos tedioso do que viver com gente, ou melhor, robôs, que agem exatamente como a gente quer. Em tempos de discussões políticas vazias e boçais que se parecem brigas de torcidas organizadas, o livro é ideal.

O livro tem trailer:

E tem capa, também:

Eugenia-e-os-robos-capa-livroEugênia e os Robôs
Indicado para crianças a partir de 9 anos
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Escritora e ilustradora: Janaina Tokitaka
Editora: Rocco
Páginas: 94

“O Pequeno Príncipe”, de Saint-Exupéry, é a bíblia da infância

Em casa de cristão, tem Bíblia. Em casa de muçulmano, há o Alcorão. Em casa de judeu, a Torá. E em casa que tem criança, há sempre um exemplar de O Pequeno Príncipe.

Ou pelo menos deveria haver, de acordo com as estatísticas. O Pequeno Príncipe é o livro infanto-juvenil mais vendido de todos os tempos na história. Está sempre no top 10. É difícil sair dali.

Mas o que faz desse livro ser uma referência em literatura para crianças? A pergunta parece até um sacrilégio. É como perguntar por que a Bíblia é referência para o cristão, ou por que o Alcorão é referência para o muçulmano.

Com toda a sensibilidade que um ser humano deveria ter para conversar com uma criança, Antoine de Saint-Exupéry escreveu uma espécie de livro de filosofia para todas as idades.

Ele começa com um relato de um desenho de uma cobra que engoliu um elefante. Nenhum adulto compreende o desenho, porque a cobra ficou parecida com um chapéu. Mas o elefante está ali sim. Desenhar coisas megacriativas, brincar de faz-de-conta, achar graça em algo que não faz sentido para os adultos são umas das grandes “frustrações” da infância. De um simples desenho “mal feito”, a gente pode virar a chavinha da filosofia e pensar em grandes questões da humanidade, como existência, relacionamentos, e principalmente, a infância.

A história do Pequeno Príncipe de cabelos dourados é contada por um aviador que se perde no deserto da África. Durante os dias em que convivem no meio da areia silenciosa, o príncipe relata as seis visitas que fez a outros planetas antes de chegar à Terra. Conheceu um rei, um vaidoso, um homem sério, um beberrão, um acendedor de lampiões e um geógrafo. Depois de muita conversa filosófica (onde em praticamente cada página há uma frase de efeito, como “é bem mais difícil julgar a si mesmo do que julgar os outros”), ele viaja para a Terra e conhece a sábia raposa.

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E dá-lhe mais frases geniais. É da boca da raposa que sai a famosa “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas” – praticamente um mantra repetido incessantemente aqui pelos lados ocidentais.

A melancolia intrínseca ao texto também tem um significado: não importa se você é criança, adulto, humano, raposa, rei ou flor, os sentimentos sempre farão parte da nossa existência. Ou, usando as palavras de Exupéry, “só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos”. ❤️

Ler o livro enquanto a gente é criança é identificar-se com as questões da infância que a história levanta. Ler o livro quanto já somos adultos é mergulhar no nosso próprio ego, indo direto ao encontro da nossa sensível, criativa, singela e há muito tempo esquecida criança interior. Parece misticismo, quase religião. Mas que O Pequeno Príncipe é a Bíblia (ou o Alcorão ou a Torá) da infância, eu tenho certeza.

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O Pequeno Príncipe
Indicado para crianças de todas as idades
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Autor e ilustrador: Antoine de Saint-Exupéry
Tradutor: Dom Marcos Barbosa
Editora: Agir
Páginas: 94

Série “Como Treinar seu Dragão” tem 2º filme e chega a 11º livro no Brasil

Já entrando no clima das férias de julho, acaba de estrear nos cinemas brasileiros a animação “Como Treinar seu Dragão 2”, continuação do sucesso de 2010.

Junto com o burburinho da estreia, a editora Intrínseca (que detém, no Brasil, os direitos de publicação dos livros que inspiraram os filmes) acaba de lançar a 11ª edição da série escrita pela britânica Cressida Cowell. A editora de livros infantis inglesa Hachette (que publica na gringa) garante que este é o penúltimo livro da série.

Como Trair o Herói de um Dragão segue a mesma narrativa rápida, atropelada e divertida dos 10 anteriores: o protagonista, o garoto viking desajeitado Soluço Spantosicus Strondus II, precisa recuperar dez coisas perdidas para se tornar o Rei do Oeste Mais Selvagem. Só que ele é mordido por um dragão, cai nas garras de uma bruxa e ainda suspeita de que um de seus amigos o está traindo.

Ótima leitura para crianças. Os assuntos são leves, divertidos, e fazem parte do imaginário comum da fase: luta do bem contra o mal, conflitos entre pais e filhos, amizades da escola, e é claro, dragões. De várias espécies.

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A série toda tem boas sacadinhas, que vou enumerar:

  1. As ilustrações são da própria autora. Como ela é melhor em escrever do que desenhar, as páginas são rabiscadas com vários garranchos, como se um irmão mais novo tivesse ‘pichado’ todos os livros com lápis preto. Isso dá um ar grotesco, bárbaro, às páginas. E faz todo o sentido com as histórias.
  2. A narração é em primeira pessoa, mas de um jeito maluco: os livros começam com uma nota explicando que a história foi encontrada em algum lugar de uma ilha nórdica remota, e que ela foi escrita pelo personagem principal, Soluço, quando ele já estava velho e queria registrar suas memórias de infância. A brincadeira é levada tão a sério que, nas capas, a história é creditada a Soluço, enquanto Cressida é apenas a tradutora.
  3. Assim como acontece com outras séries literárias infantis, Como Treinar seu Dragão está amadurecendo. De umas edições pra cá, algumas páginas são completamente pretas. Elas normalmente contam histórias mais obscuras, quase de terror, cheias de emoções (que a criançada adora).

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Só para desencargo de consciência: na verdade, há 12 livros da série. Um deles foi “escrito” pelo dragão de estimação de Soluço, o Banguela. Por isso, ele conta como um extra, assim como Os Contos de Beedle, o Bardo (J.K. Rowling), que tem a ver com Harry Potter, mas não conta como publicação da série. Ah, e o nome do livro do Banguela é Como Treinar o seu Viking. Eu li e achei ótimo. Um dos mais engraçados.
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Como Trair o Herói de um Dragão
Indicado para crianças com idade a partir de 9 anos
Texto e ilustrações: Cressida Cowell
Tradução: Raquel Zampil
Editora: Intrínseca
Páginas: 405

Compre o livro “Como Trair o Herói de um Dragão” na Livraria Cultura

“Meu Avô tem Oito Anos” é quase uma máquina do tempo para o Rio dos anos 1940

Tá difícil explicar para os seus filhos como era a infância do século 20 sem que eles achem tudo muito chato e troquem o assunto por qualquer coisa mais animada do tablet?

O livro Meu Avô tem Oito Anos cumpre o papel de contar histórias da época em que nossos avós eram apenas crianças. E o melhor de tudo: sem aquele ar de saudosismo de sempre dizer no meu tempo era assim, ou na minha época era muito melhor.

Nos anos 40, a coisa mais legal que poderia acontecer a uma criança era subir num elefante do circo (hoje, é proibido manter animais em circos)

Nos anos 40, a coisa mais legal que poderia acontecer a uma criança era subir num elefante do circo (hoje, é proibido manter animais em circos)

Em pouco mais de 100 páginas deliciosas, cheias de referências pop, a autora Sônia Travassos narra a história dos meninos cariocas Miguel e Vítor. Em um destes domingos de almoço na casa dos avós, os irmãos entram no Corsa branco com o pai Júlio e a mãe Renata e, no meio do caminho, viajam no tempo sem querer e vão parar na Cidade Maravilhosa de 1938.

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O Copacabana Palace já existia na época, mas reinava um tanto sozinho. Quase não haviam prédios tão grandes como ele na orla da praia

Nesse ano, o avô dos meninos vivia em um casarão em Copacabana, e só tinha oito anos. É claro que, segundo os conhecimentos científicos do filme “De Volta para o Futuro”, não é recomendável encontrar alguém da sua família em uma viagem ao passado. Mas não tem jeito: os meninos acabam, literalmente, topando com o avô deles.

A história é muito engraçada e tem tiradas geniais sobre a saga Harry Potter e aos filmes de Marty McFly. Diverte e ensina: dá pra ser usado para entender até um pouco mais sobre a história do Brasil e do Rio de Janeiro.

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Meu Avô tem Oito Anos
Livro indicado para crianças com idade a partir de 8 anos
Autora: Sônia Travassos
Ilustradora: Taline Schubach
Editora: Globo
Páginas: 111

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