“As Aventuras de Glauber & Hilda”: um dos livros mais geniais de 2015

Prepare-se para conhecer um dos melhores lançamentos na literatura infantil nacional dos últimos tempos: o livro As Aventuras de Glauber & Hilda, escrito pela jornalista Índigo e ilustrado por Caco Galhardo, é simplesmente genial.

Ele conta a história de um casal inusitado: Hilda é esperta, prática, despojada, valente. Glauber é sonhador, poético, pacifista, tranquilo. À primeira vista, nem parece que é livro para criança. Mas é sim. Hilda é uma pulga, e Glauber é um ácaro.

As Aventuras de Glauber & Hilda

Juntos até que a morte os separe, o casal passa por perrengues dignos apenas de seres da última escala da pirâmide alimentar: os parasitas. O livro começa com os dois tentando fazer sucesso num circo decadente. Assim que a situação vai complicando para o lado deles, Glauber e Hilda dão um jeito de escapar. Sempre em busca da felicidade – ou, pelo menos, de um lar.

As Aventuras de Glauber & Hilda

Os dois tentam morar nos pelos da Monga, a mulher gorila; em um cão de rua que só tem três patas; numa pomba barulhenta; no cabelo de um surfista e até nas barbas do Profeta.

É hilário. 😀
Capa do livro As Aventuras de Glauber & Hilda
As Aventuras de Glauber & Hilda
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Indicado para crianças a partir de 8 anos
Autora: Índigo
Ilustrador: Caco Galhardo
Páginas: 47
Editora: Companhia das Letrinhas

Saiba mais sobre “Breve História de um Pequeno Amor”, livro vencedor do Jabuti

É raro um livro infantil conquistar o prêmio máximo do Jabuti – o mais importante da literatura brasileira. Breve História de um Pequeno Amor, de Marina Colasanti, foi premiado como livro de ficção do ano de 2014. O reconhecimento não veio só agora. O livro já tinha levado o selo “Altamente Recomendável – Categoria Criança” e o prêmio “Criança Hors-Concours” pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), em maio de 2014.

A breve história do amorico de Marina carrega, em páginas com poucas frases, fontes grandes e ilustrações simples, toda a sensibilidade que pode existir no ser humano. Fala sobre o amor que vai se desenvolvendo entre a escritora e um filhote de pomba desamparado.

A história é real – sim, Marina criou um pombo e apegou-se à ele como um filho – e sim, ela sentiu ciúme de mãe quando o pombo arrumou uma namorada e preferia passar mais tempo com ela do que com a escritora. E justamente por ser real que o livro não tem crianças. Apesar de singela, a breve história de um pequeno amor é densa como um sentimento.

Mas peraí: esse é mesmo um livro para crianças? Sim! Quem disse que criança não sente amor ou ciúme? Quem disse que livro de criança não pode ter criança? É porque a escritora sabe que uma criança é também ser humano que ela produz boa literatura para elas. Pensar que criança não sabe discutir, interpretar e analisar, é escrever de um jeito simplista – uma maneira de entrar num ciclo de literatura ruim e subestimar leitores. Talvez uma criança ainda não seja capaz de sentir o ciúme que as mães sentem. Mas, escrever livros com o intuito da criança se identificar com a obra pode ser outro erro. Afinal, quando a gente lê García Marquez ou Saramago, nem sempre nos identificamos com os personagens.

Mais sobre o livro

Com 45 páginas e um folheto com perguntas de interpretação de texto, o livro foi lançado pela editora FTD, uma das principais produtoras de livros didáticos no Brasil.

Tudo começa com uma infiltração no teto do apartamento. Para corrigir, seria preciso trocar as telhas. Debaixo do telhado, havia um ninho de pombos. A mãe, assustada com a reforma, voou para longe, deixando suas duas crias à mercê do destino.

Comovida, a escritora pegou os dois filhotes para criar. Dias depois, um deles morre e sobra outro, que vai crescendo e ficando forte até o ponto de ganhar um nome: Tom, em lembrança de Tom Hanks, protagonista do filme “Náufrago”.

Os dois começam uma relação de mãe e filho. Vários episódios cotidianos são descritos até o dia em que Tom decide “casar-se” com a namorada e procura outro lugar para morar. Parece um episódio, um pedaço de história maior. Uma crônica singela. E essa foi a intenção da escritora: no fim do livro, ela conta que gosta de arrumar histórias na fila do ônibus, na feira, na praia, no elevador ou na natureza. O mundo como ele é. Simples e complexo ao mesmo tempo.

Quem é Marina Colasanti

Nascida na Eritreia, África, em 1937, Marina passou a infância na Itália e, na adolescência, veio morar em um palacete no Rio de Janeiro. Tentou ser artista plástica, mas se descobriu escritora quando começou “pintar” palavras. De vez em quando, ela escreve para crianças. Mas é como se escrevesse para pessoas. Seus livros podem ser lidos por todas as idades – inclusive os contos de fadas, em que ela sempre insere elementos questionadores sobre o consumismo, a inveja, o egoísmo, amizade, as relações familiares… Adulto demais? Não. Humano demais.

Breve história de um pequeno amor

Breve História de Um Pequeno Amor
Autora: Marina Colasanti
Ilustradora: Rebeca Luciani
Páginas: 45
Editora: FTD

Míriam Leitão não fala só de economia: também escreve sobre meninas e passarinhos

Vem lá dos anos 1980 as minhas primeiras lembranças da jornalista Míriam Leitão: uma repórter séria, muito séria, que sempre falou na TV sobre um dos temas mais cabeludos do universo (principalmente naquela época de inflações exorbitantes): economia.

Recentemente ela esteve envolvida em dois episódios adultos demais para um blog sobre literatura infantil. Um sobre seu verbete ser alterado no Wikipedia por um IP de computador do Palácio do Planalto e outro sobre seu depoimento da época em que foi presa e torturada por militares durante a ditadura no Brasil.

E não foi pequena a surpresa quando descobri que a mesma Míriam, tão séria, havia lançado um livro infantil. Quer dizer: dois livros infantis. O mais recente, A Menina de Nome Enfeitado, acaba de sair pela editora Rocco.

Míriam Leitão também tem coração!

Míriam Leitão também tem coração!

No livro, a menina Nathália está aprendendo a ler e fica intrigada com a função da letra H. Principalmente porque, no nome dela, a consoante só serve para enfeitar. Com ajuda de sua tia Nininha, Nathália descobre um mundo de possibilidades que a 8ª letra do alfabeto oferece.

Com ilustrações fofas de Alexandre Rampazo, A Menina de Nome Enfeitado é perfeito para crianças em fase de alfabetização. Quase um livro didático 😉

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A Menina de Nome Enfeitado
Indicado para crianças com idade igual ou superior a 5 anos
Ilustrações: Alexandre Rampazo
Páginas: 24
Editora: Rocco

Já o livro de estreia da jornalista na literatura infantil, A Perigosa Vida dos Passarinhos Pequenos, publicado em 2013, tem mais jeito de Míriam Leitão.

Quando eu conheço uma pessoa, eu tenho a estranha mania de ler os textos escritos por ela imaginando a voz dessa pessoa. É, pois é. Eu li o livro dos passarinhos ouvindo a voz da Míriam. Principalmente no primeiro parágrafo:

“A chuva não parava. Isso preocupava a passarinhada. O passarinho novo, que havia nascido no ninho, bem perto da janela da casa da Fazenda, estava em perigo. Os pais Coleirinhos tinham decidido fazer o ninho naquela árvore. Foi um erro. A árvore era bonita, florida, mas era pequena. Na verdade, era um arbusto. Arbustos não crescem muito. Aquele seria sempre mais ou menos pequeno.”

É quase uma figura de linguagem sobre a história da economia brasileira :-p Brincadeira. A história é lindinha, de uma sensibilidade que só avós (como ela é, e como a minha avó, que ama passarinhos, também é) podem repassar. Fala justamente sobre como é estressante a vida dos passarinhos pequenos – mesmo para os que vivem soltos em uma fazenda repleta de mata nativa.

O texto tem nuances que revelam aquelas sabedorias de avó, intercaladas pela personalidade jornalística de Míriam. Ela menciona tanto o pássaro Fogo-Apagou (que, OPA!, a minha avó também conhece e adora escutar o seu canto, tão raro e tão melancólico), como também menciona termos que sempre estão em suas análises:

“Como fazer para aumentar a mata?
— Isso está virando um grave problema econômico — disse o Sabiá, enchendo o ar de seu peito laranja.
— Problema habitacional: não tem casa para todo mundo — corrigiu o Bem-te-vi.”

Usando metáforas do que acontece nos quintais e nas fazendas brasileiras, a primeira história infantil de Míriam não só expõe os problemas dos passarinhos, como a preocupação que está nos corações de crianças de todas as idades: o nosso grande problema com o meio ambiente. Com pitadas de sentimentos de justiça, de direitos igualitários e vida em sociedade, escritos com propriedade de quem já lutou contra a ditadura militar (como a minha avó também lutou).

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A Perigosa Vida dos Passarinhos Pequenos
Indicado para crianças com idade igual ou superior a 8 anos
Ilustrações: Rubens Matuck
Páginas: 55
Editora: Rocco