“Eugênia e os Robôs” é uma história meio nerd que fala sobre… Humanos

Em suas histórias mais famosas, José Saramago ❤ utiliza um recurso simples e eficaz: a partir de uma suposição, ele desenvolve uma trama que capta o leitor até a última linha do emaranhado de frases sem pontos, ansioso para entender como seria se todo mundo ficasse cego, ou todo mundo votasse em branco.

A escritora e ilustradora Janaina Tokitaka usou do mesmo recurso, do E SE, para criar a história de Eugênia e os Robôs: e se todo mundo virasse robô de repente? A partir dessa suposição, a história desenvolve-se abordando as diferenças entre as pessoas, o sentido do eu, a tolerância social.

O livro tem uma menina como personagem principal, mas não é mais uma dessas garotas-clichês-vazias de livros infantis. A tímida e antissocial Eugênia é inteligente e adora tecnologia. Sem amigos na escola e sem pais ideais (que criança no mundo acredita que seus pais são os melhores, gente?), transforma seu quarto high-tech em um laboratório de robótica.

Ela curte tanto a ideia de criar robôs para brincar que decide transformar cada um dos seres vivos de sua cidade em máquinas. A partir daí, tudo começa a sair do jeitinho que ela queria. E a partir daí, a personagem principal, inteligente e tímida, transforma-se em anti-herói.

Eugênia começa a perceber que conviver com as diferenças é menos tedioso do que viver com gente, ou melhor, robôs, que agem exatamente como a gente quer. Em tempos de discussões políticas vazias e boçais que se parecem brigas de torcidas organizadas, o livro é ideal.

O livro tem trailer:

E tem capa, também:

Eugenia-e-os-robos-capa-livroEugênia e os Robôs
Indicado para crianças a partir de 9 anos
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Escritora e ilustradora: Janaina Tokitaka
Editora: Rocco
Páginas: 94

Halloween: livros sobre monstros, terror e medo para crianças

Sim, o Dia das Bruxas é uma data que tem muito mais a ver com a cultura dos Estados Unidos do que com a brasileira. Mas uma coisa é certa: criança que é criança sente medo e adora histórias fantásticas. Em qualquer parte do mundo.

Para celebrar a imaginação dos nossos pequenos, aí vão três sugestões de livros com participações especiais de seres ~assustadores~ para divertir as crianças:

O Medo que Mora Embaixo da Cama

O livro de Mariza Tavares trata de um assunto supercomum para crianças pequenas: a imaginação que, à noite, se transforma em medo. Objetos do cotidiano podem virar monstros assustadores no apagar das luzes. Na história, um menino derruba todos os seus temores desconstruindo os monstros e revelando, com uma lanterna, que os seres fantásticos não passam de meias com chulé, ursos de pelúcia, carrinhos de brinquedo…

Com rimas divertidas, o livro é ideal para ler para crianças em noites em que elas são acometidas por medos comuns das mentes mais criativas – principalmente as mais novinhas. 🙂

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O Coiso Estranho

A linguagem rebuscada de O Coiso Estranho, de Blandina Franco, apresenta um monstro espiclondrífico, que na verdade não passa de um chafalhão que gosta de ir a pangalhadas.

Bom para ler em voz alta, tentando não errar as palavras difíceis. 🙂 No fim do livro, todo ilustrado com grãos de areia colorida por José Carlos Lollo, há um dicionário que explica todas as palavras malucas usadas para apresentar o Coiso.

Não chega a ser um livro de terror – a não ser que a criança tenha medo de palavras grandes e esquisitas! (Sim, essa fobia existe. O nome dela é hipopotomonstrosesquipedaliofobia). :p

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Vampiro – Uma Tenebrosa Noite de Sustos, Doces e Travessuras

O terceiro livro da série Meus Queridos Monstrinhos, escrita por André Vianco, conta como o personagem principal, o menino Pedro, se mete em enrascadas por causa de sua paixão secreta pela Bia.

Na noite de 31 de outubro, Bia pede a ajuda de Pedro para resolverem o problema de Eric Depiro, um amigo incomum que vem sofrendo de uma terrível dor de dente. A história é bem leve e tem tudo a ver com o universo das crianças de hoje, principalmente as mais grandinhas, com mais de 9 anos.

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Cinco livros que questionam o padrão “princesa cor-de-rosa” em garotas

Quem tem meninas em casa conhece as preocupações sobre o bombardeamento cor-de-rosa que existe na vida delas. Tudo é motivo para elas acreditarem, com toda a certeza, de que são princesas e merecem viver um sonho, um conto de fadas, uma história perfeita.

Essa mensagem está nos materiais da escola, na comida, nos filmes, nos móveis do quarto, nas roupas, nos acessórios, nas maquiagens, e, claro, nos livros.

Quer dizer: alguns livros. Há outros que são mais pé no chão e criticam o sexismo e princesização (inventei essa palavra) das crianças. É sobre isso que esse post fala. E aí vão dicas de cinco livros que criticam os mundos perfeitos das princesas e vão fazer qualquer menina ~encantada~ questionar e reivindicar o papel das garotas (inclusive o dela) no mundo.

Até a Encantada ficou empolgada

Até a Encantada ficou empolgada

1. Olivia Não Quer ser Princesa

A porquinha rebelde criada pelo ilustrador Ian Falconer (que virou um desenho animado melhor que a Peppa) não quer, de jeito nenhum, ser princesa. É porque TODO MUNDO que ela conhece quer ser princesa (inclusive alguns meninos).

Olivia se imagina como uma pessoa mais útil: uma enfermeira para ajudar os doentes, uma supermãe que adota órfãos do mundo inteiro ou uma repórter que descobre as falcatruas dos políticos. Agora, sim, estamos falando em nobreza!

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Olivia Não Quer ser Princesa
Autor: Ian Falconer (tradução Silvana Salerno)
Páginas: 34
Editora: Globinho

2. Por que só as princesas se dão bem?

Em sua estreia como escritora infantil, a idolatrada pelas adolescentes Thalita Rebouças vem com uma história para abalar as estruturas do castelo. No livro, a curiosa e despojada Bia (inspirada na afilhada da escritora) vive um dia de princesa.

De uma hora para outra, a menina perde os cachos do cabelo (princesas têm cabelo liso de chapinha); o café da manhã (sem leite com chocolate, porque engorda); a escola (princesas estudam com professora particular); as brincadeiras (princesas não têm tempo para brincar. É preciso ir a eventos, desfiles, entrevistas, reuniões, inaugurações…); e perde até a mãe (para quê mãe, se agora ela tem um príncipe – que, a propósito, está viajando).

O vestido aperta, o sapato machuca, os paparazzi a cercam, e ela não pode nem soltar pum ou fazer xixi e cocô. Fala sério :-P, desde quando princesa come de boca aberta?

Depois de viver esse dia atarefado, Bia descobre que, melhor do que a vida de princesa, o importante é ser feliz do jeito que a gente é.

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Por que só as princesas se dão bem?
Autora: Thalita Rebouças
Ilustrações: Fabiana Salomão
Páginas: 36
Editora: Rocco

3. A Ervilha que não era Torta… Mas deixou uma princesa assim

Nesse livro (já falei sobre ele aqui), a velha história da Princesa e a Ervilha começa com aquela narrativa clássica de Hans Christian Andersen: em uma noite de chuva, uma princesa desabrigada bate na porta do castelo, em busca de uma cobertura para as suas tormentas. A rainha do castelo a recebe, mesmo duvidando da história de que ela seria uma princesa.

Para tirar a prova, a rainha coloca a princesa para dormir em cima de uma pilha de colchões macios. Embaixo do último, enfiou uma ervilha. No dia seguinte, ao ser perguntada pela rainha se havia dormido bem, a princesa responde que não – algo embaixo dos colchões incomodou o sono da coitada durante toda a noite.

Taí a prova que a rainha tanto queria: por ser tão frágil e sensível, a nobre mãe de um príncipe constatou que a garota era sim, uma princesa. E permitiu que ela se casasse com o seu filhinho.

É a partir daí que a história adaptada por Maria Amália Camargo toma outro rumo: o príncipe é um rapaz mal-educado, metido e, consequentemente, feioso. E a princesa não quer se casar com ele – ela agradece a hospitalidade bizarra e decide fazer o que quiser da sua vida. ❤

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A Ervilha que não era Torta… Mas deixou uma princesa assim
Autora: Maria Amália Camargo
Ilustrações: Ionit Zilberman
Páginas: 32
Editora: Caramelo

4. Uma Chapeuzinho Vermelho

Ok, Chapeuzinho Vermelho não é bem uma princesa: é uma menina até corajosa, que encarou o lobo mau (com uma certa inocência), mas só conseguiu se livrar das maldades do canino quando foi salva pelo caçador.

O livro quase sem palavras e com aparência de ter sido ilustrado por uma criança de dois anos mostra uma Chapeuzinho pra lá de esperta. Chega até a ser meio malvada. É que ela não sente muita compaixão pelo lobo mau. O final, inteligente demais, é surpreendente até para os adultos. Recomendo para todas as idades. 🙂

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Uma Chapeuzinho Vermelho
Autora e ilustradora: Marjolaine Leray
Páginas: 48
Editora: Companhia das Letrinhas

5. Branca de Neve e as Sete Versões

O livro de José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta faz parte de uma série lançada pela editora Objetiva que recria os contos infantis clássicos. Ele tem a protagonista mais bobinha de todas as histórias citadas neste post, mas não deixa de ser interessante: o leitor pode escolher as ações da Branca de Neve.

Dependendo das escolhas, o final muda completamente: a garota pode cair num sono profundo com os anões e nunca mais acordar, a madrasta pode ser enganada pelo espelho até o fim da vida dela (e nunca perseguir Branca…). Boa maneira de pensar que nossas ações são as que definem a nossa história.

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Branca de Neve e as Sete Versões
Autor: Marcus Aurelius Pimenta e José Roberto Torero
Ilustradora: Bruna Assis Brasil
Páginas: 52
Editora: Objetiva/Alfaguara

Míriam Leitão não fala só de economia: também escreve sobre meninas e passarinhos

Vem lá dos anos 1980 as minhas primeiras lembranças da jornalista Míriam Leitão: uma repórter séria, muito séria, que sempre falou na TV sobre um dos temas mais cabeludos do universo (principalmente naquela época de inflações exorbitantes): economia.

Recentemente ela esteve envolvida em dois episódios adultos demais para um blog sobre literatura infantil. Um sobre seu verbete ser alterado no Wikipedia por um IP de computador do Palácio do Planalto e outro sobre seu depoimento da época em que foi presa e torturada por militares durante a ditadura no Brasil.

E não foi pequena a surpresa quando descobri que a mesma Míriam, tão séria, havia lançado um livro infantil. Quer dizer: dois livros infantis. O mais recente, A Menina de Nome Enfeitado, acaba de sair pela editora Rocco.

Míriam Leitão também tem coração!

Míriam Leitão também tem coração!

No livro, a menina Nathália está aprendendo a ler e fica intrigada com a função da letra H. Principalmente porque, no nome dela, a consoante só serve para enfeitar. Com ajuda de sua tia Nininha, Nathália descobre um mundo de possibilidades que a 8ª letra do alfabeto oferece.

Com ilustrações fofas de Alexandre Rampazo, A Menina de Nome Enfeitado é perfeito para crianças em fase de alfabetização. Quase um livro didático 😉

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A Menina de Nome Enfeitado
Indicado para crianças com idade igual ou superior a 5 anos
Ilustrações: Alexandre Rampazo
Páginas: 24
Editora: Rocco

Já o livro de estreia da jornalista na literatura infantil, A Perigosa Vida dos Passarinhos Pequenos, publicado em 2013, tem mais jeito de Míriam Leitão.

Quando eu conheço uma pessoa, eu tenho a estranha mania de ler os textos escritos por ela imaginando a voz dessa pessoa. É, pois é. Eu li o livro dos passarinhos ouvindo a voz da Míriam. Principalmente no primeiro parágrafo:

“A chuva não parava. Isso preocupava a passarinhada. O passarinho novo, que havia nascido no ninho, bem perto da janela da casa da Fazenda, estava em perigo. Os pais Coleirinhos tinham decidido fazer o ninho naquela árvore. Foi um erro. A árvore era bonita, florida, mas era pequena. Na verdade, era um arbusto. Arbustos não crescem muito. Aquele seria sempre mais ou menos pequeno.”

É quase uma figura de linguagem sobre a história da economia brasileira :-p Brincadeira. A história é lindinha, de uma sensibilidade que só avós (como ela é, e como a minha avó, que ama passarinhos, também é) podem repassar. Fala justamente sobre como é estressante a vida dos passarinhos pequenos – mesmo para os que vivem soltos em uma fazenda repleta de mata nativa.

O texto tem nuances que revelam aquelas sabedorias de avó, intercaladas pela personalidade jornalística de Míriam. Ela menciona tanto o pássaro Fogo-Apagou (que, OPA!, a minha avó também conhece e adora escutar o seu canto, tão raro e tão melancólico), como também menciona termos que sempre estão em suas análises:

“Como fazer para aumentar a mata?
— Isso está virando um grave problema econômico — disse o Sabiá, enchendo o ar de seu peito laranja.
— Problema habitacional: não tem casa para todo mundo — corrigiu o Bem-te-vi.”

Usando metáforas do que acontece nos quintais e nas fazendas brasileiras, a primeira história infantil de Míriam não só expõe os problemas dos passarinhos, como a preocupação que está nos corações de crianças de todas as idades: o nosso grande problema com o meio ambiente. Com pitadas de sentimentos de justiça, de direitos igualitários e vida em sociedade, escritos com propriedade de quem já lutou contra a ditadura militar (como a minha avó também lutou).

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A Perigosa Vida dos Passarinhos Pequenos
Indicado para crianças com idade igual ou superior a 8 anos
Ilustrações: Rubens Matuck
Páginas: 55
Editora: Rocco